28/04/2026

Perimenopausa ainda é pouco reconhecida e varia entre países, aponta estudo

Levantamento global mostra que sintomas comuns são confundidos com rotina e que diferenças culturais impactam o reconhecimento e o acesso ao tratamento

Um estudo internacional com 17.494 mulheres de 158 países identificou que a perimenopausa ainda é pouco reconhecida pelas próprias mulheres, apesar da alta frequência de sintomas no dia a dia. A pesquisa, publicada na revista Menopause, no artigo “Global perspectives on perimenopause: a digital survey of knowledge and symptoms using the Flo application”, analisou dados coletados por meio de um aplicativo de saúde e revelou um descompasso entre o que se entende como sintoma e o que de fato é vivenciado durante essa fase da vida.

Embora ondas de calor sejam amplamente associadas à perimenopausa, o estudo indica que sinais como cansaço extremo, irritabilidade e alterações de humor são mais frequentes na prática. O levantamento também aponta variações relevantes entre países, níveis de renda e contextos sociais, fatores que influenciam tanto o reconhecimento da condição quanto a busca por cuidado.

“A perimenopausa não é um evento pontual, mas uma fase de transição, que pode durar anos e apresentar sintomas variados e irregulares. Além disso, não existe um exame único que confirme esse período de forma definitiva. A falta de informação acessível e de diálogo sobre o tema também contribui para essa incerteza”, afirma Isabelle Rodrigues dos Santos, doutora em Ciências com ênfase em Fisiologia da Reprodução pela FMRP-USP e Diretora de Operações na Dr. Fisiologia.

Sintomas não reconhecidos

Os dados mostram uma percepção limitada sobre o que caracteriza a perimenopausa. Entre as mulheres entrevistadas, 71% associaram a fase às ondas de calor, 68% a problemas de sono e 65% ao ganho de peso.

Na prática, porém, os sintomas mais relatados entre mulheres com 35 anos ou mais são outros: fadiga e exaustão física e mental (83%), irritabilidade (80%), humor depressivo (77%), além de problemas de sono e questões digestivas (ambos com 76%) e ansiedade (75%).

Esse desencontro ajuda a explicar por que muitas mulheres demoram a identificar a transição hormonal. Sinais como cansaço, alterações de humor e dificuldade para dormir costumam ser associados ao estresse ou à sobrecarga do cotidiano.

Quando a mulher não identifica que os sintomas podem estar ligados à perimenopausa, é comum que ela os associe a situações do dia a dia, como estresse, ansiedade ou cansaço acumulado. “Isso pode levar a uma busca fragmentada por atendimento ou até à normalização do desconforto, atrasando o diagnóstico e o início de estratégias de cuidado adequadas”, informa Isabelle.

Diferenças entre países

O estudo também identificou variações significativas no conhecimento e na experiência dos sintomas entre diferentes regiões do mundo. Em países de alta renda, o nível médio de conhecimento sobre perimenopausa foi de 13,41 pontos, enquanto em países de baixa renda ficou em 8,04.

Essas diferenças refletem desigualdades no acesso à informação, à educação em saúde e aos serviços médicos. Em contextos com menor acesso a conteúdos confiáveis, a fase tende a ser menos compreendida e mais associada a crenças ou interpretações equivocadas.

Fatores como raça e etnia também influenciam a forma como os sintomas são percebidos e relatados. Um estudo com mais de 67 mil mulheres, publicado na revista Menopause, no artigo “The association of race, ethnicity, and socioeconomic status on the severity of menopause symptoms: a study of 68,864 women”, mostrou que mulheres negras têm maior probabilidade de relatar ondas de calor mais intensas, enquanto mulheres hispânicas relatam mais alterações de pele e cabelo, e mulheres indígenas apresentam maior chance de dor durante o sexo.
Essas diferenças persistem mesmo após ajustes socioeconômicos, indicando que fatores culturais e biológicos também interferem na experiência da perimenopausa.

Busca por ajuda

Apesar da frequência dos sintomas, a procura por atendimento médico ainda acontece de forma tardia. Dados citados no artigo “Global perspectives on perimenopause: a digital survey of knowledge and symptoms using the Flo application”, publicado na revista Menopause, mostram que apenas 16% das mulheres entre 41 e 45 anos buscam ajuda. Esse número sobe para 36% entre 46 e 50 anos e chega a 52% após os 56 anos.

Um dos principais motivos é a normalização dessas mudanças. Muitas mulheres entendem os sintomas como parte natural do envelhecimento ou da rotina, sem associá-los a uma fase específica que pode ser acompanhada.

“Existem vários fatores envolvidos. Muitas mulheres acreditam que os sintomas são ‘normais’ e que precisam apenas suportá-los. Além disso, há uma baixa percepção de que existem formas de cuidado disponíveis”, explica Isabelle.

Barreiras sociais também dificultam o acesso ao cuidado. A revisão “Barriers to the safe discussion of the experience and management of menopausal symptoms”, publicada na revista Maturitas, aponta fatores como estigma, falta de apoio familiar e profissional, informações de baixa qualidade e receio de abordar o tema.

“Esses fatores podem contribuir para o silêncio em torno do tema. Em alguns contextos, falar sobre o corpo feminino, envelhecimento ou sexualidade ainda é visto como tabu. Isso pode gerar vergonha, minimizar os sintomas ou desencorajar a busca por ajuda”, afirma Isabelle.

Questões estruturais, como o machismo, também podem fazer com que as queixas das mulheres sejam menos valorizadas, dificultando o acesso a um atendimento adequado e tornando esse cenário ainda mais delicado.

Embora até 85% das mulheres apresentem sintomas relacionados à menopausa, muitas não buscam orientação médica, seja por desconhecimento, insegurança ou experiências negativas anteriores com o sistema de saúde, segundo a revista Maturitas no mesmo artigo.

Impacto na qualidade de vida

A perimenopausa pode afetar diferentes aspectos da vida, do bem-estar emocional à produtividade no trabalho. O artigo “Prevalence and impact of vasomotor symptoms due to menopause among women in Canada: a subgroup analysis from the WARM Study”, publicado na revista Menopause, mostra que sintomas como ondas de calor e distúrbios do sono podem comprometer atividades diárias, qualidade de vida e desempenho profissional.

Mesmo assim, o acesso ao tratamento ainda é desigual. A terapia hormonal, considerada uma das opções mais eficazes para sintomas vasomotores, é abordada no artigo “Integrative approaches to perimenopause”, publicado no The American Journal of Medicine, mas não é utilizada de forma uniforme entre os grupos.

“O atraso pode levar à piora da qualidade de vida, com sintomas mais intensos e persistentes, como alterações de humor, distúrbios do sono e impacto na vida sexual e profissional. Além disso, algumas condições associadas à queda hormonal, como perda de massa óssea, podem evoluir sem acompanhamento adequado”, afirma Isabelle.

Diferenças por etnia, condições de saúde e acesso aos serviços influenciam diretamente essa escolha, como mostra o artigo “Factors Associated With Hormone Replacement Therapy Use: A Systematic Review and Meta-Analysis”, publicado na revista BJOG: An International Journal of Obstetrics & Gynaecology.

Além disso, o artigo “Global view of vasomotor symptoms and sleep disturbance in menopause: a systematic review”, publicado na revista Climacteric, mostra que a frequência dos sintomas e o uso de tratamento variam entre grupos raciais e regiões, reforçando que a experiência não é homogênea e depende do contexto.

Em países de baixa e média renda, o cenário é ainda mais desafiador. A revisão “Menopause in low and middle-income countries: a scoping review of knowledge, symptoms and management”, publicada na revista Climacteric, indica baixo nível de conhecimento sobre a menopausa, estigma cultural e maior uso de tratamentos tradicionais, muitas vezes por falta de acesso a alternativas baseadas em evidências.

Perimenopausa além da biologia

A perimenopausa é uma fase natural da vida, marcada por mudanças hormonais que podem começar anos antes da menopausa. Ainda assim, a forma como cada mulher vivencia esse período varia amplamente e é influenciada por fatores sociais, culturais e individuais, como aponta a revisão “An exploration of women's knowledge and experience of perimenopause and menopause: An integrative literature review”, publicada no Journal of Clinical Nursing.

Além disso, o artigo “An empowerment model for managing menopause”, publicado na revista The Lancet, destaca que fatores psicológicos, sociais e culturais têm papel central nessa experiência, reforçando que o cuidado vai além do aspecto biológico.

Especialistas defendem que ampliar o acesso à informação e promover conversas mais abertas sobre o tema são passos essenciais para reduzir atrasos no diagnóstico e melhorar a qualidade de vida das mulheres.

“Ainda falta informação clara, acessível e baseada em evidências sobre o que é a perimenopausa, quais são seus sintomas e quais estratégias de cuidado existem. Muitas mulheres não sabem, por exemplo, que alterações de humor, dificuldade de concentração e mudanças no sono podem estar relacionadas a essa fase. Também há lacunas sobre quando procurar ajuda e quais profissionais podem apoiar nesse processo”, aborda Isabelle.

Reconhecer os sinais e buscar orientação são medidas que ajudam a tornar essa fase mais compreendida e, principalmente, mais bem cuidada.

“É importante ampliar o acesso à informação e à educação em saúde, capacitar profissionais para reconhecer e manejar melhor essa fase e incluir o tema nas políticas públicas de saúde da mulher”, conclui Isabelle.

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