O que a psicologia ensina aos profissionais sobre desinformação em saúde
A desinformação em saúde é um desafio cotidiano e crescente. Médicos, farmacêuticos e demais profissionais da saúde convivem com pacientes que chegam confusos, inseguros ou resistentes, muitas vezes após terem sido expostos a boatos bem articulados e altamente persuasivos. A correção técnica nem sempre basta, porque o problema vai além da informação em si — está em como ela é percebida, processada e mantida pelas pessoas.
É nesse ponto que a psicologia cognitiva e comportamental se mostra uma aliada estratégica. Ela permite compreender por que crenças incorretas persistem, mesmo diante de evidências, e como é possível abordá-las com mais eficácia, empatia e cuidado.
Por que a desinformação se espalha tão rápido?
Mensagens falsas circulam com mais facilidade porque se aproveitam de características cognitivas humanas. São simples, emotivas e repetitivas — três elementos que favorecem a memorização e o compartilhamento. Enquanto a informação científica exige interpretação e atenção, a desinformação se apresenta com frases curtas, apelos emocionais e, muitas vezes, acompanhada de imagens que ampliam o engajamento.
Esse cenário se torna ainda mais potente quando observamos o ambiente digital em que essas informações circulam. Segundo projeções de 2025, o Brasil têm 502 milhões de dispositivos digitais ativos, sendo 272 milhões de smartphones e 230 milhões de computadores — com os celulares respondendo por 54% da base ativa. Ou seja, a informação circula por canais rápidos, personalizados e muito acessíveis.

E também, segundo a Cetic.br, 88% da população brasileira estará conectada à internet em 2025, somando cerca de 163 milhões de usuários, incluindo áreas urbanas e rurais. Isso amplia o alcance da desinformação, mas oferece oportunidades para ações de comunicação mais estratégicas.

Segundo o curso “Mind Over Misinformation”, baseado em pesquisas científicas, informações falsas se espalham mais rápido que as verdadeiras nas redes sociais . Isso se deve, em parte, ao chamado viés de confirmação, que leva as pessoas a aceitarem mais facilmente conteúdos que reforçam suas crenças prévias, independentemente de serem verdadeiros.
Outro fator é o efeito de familiaridade: quanto mais vezes uma afirmação é ouvida — mesmo que seja falsa —, mais verdadeira ela parece. Essa é uma das razões pelas quais desmentir um boato repetindo-o pode acabar reforçando-o.
A mente resiste à correção
Mesmo quando a pessoa é exposta à informação correta, a correção nem sempre funciona. Estudos do curso Mind Over Misinformation mostram que desmentidos diretos, sem cuidado na forma, podem ativar ainda mais resistência, especialmente quando a crença incorreta está associada a valores, identidades sociais ou experiências pessoais. Esse fenômeno é conhecido como efeito de reforço, e ocorre quando a tentativa de correção fortalece, involuntariamente, a crença anterior.
Além disso, quando um conteúdo falso é mais fácil de entender do que sua correção, ele tende a “grudar” mais na memória. Isso é particularmente perigoso na área da saúde, onde conceitos técnicos, como eficácia de vacinas ou mecanismos de transmissão de doenças, exigem algum nível de abstração.
O papel da psicologia no combate à desinformação
A psicologia oferece ferramentas validadas para tornar a comunicação em saúde mais eficaz, especialmente no enfrentamento de informações falsas. Uma dessas estratégias é o prebunking (ou pré-exposição), que funciona como uma “vacina cognitiva”. Trata-se de apresentar, de forma antecipada, uma versão resumida do erro mais comum, explicando que ele será usado para manipular ou enganar. Segundo o curso e as pesquisas da American Psychological Association (APA) demonstram que expor o público ao formato da manipulação antes do contato com a mentira reduz significativamente sua aceitação futura.
Outra estratégia é o debunking, ou seja, a correção feita com técnica e empatia. Isso inclui começar pela verdade, evitar repetir o boato logo de início, apresentar evidências de forma clara e acessível e, acima de tudo, validar as dúvidas do paciente sem julgamento. Ainda de acordo com o curso, indicam que mensagens curtas, visuais e com narrativas reais aumentam a aceitação de correções e reduzem a fixação do conteúdo falso.
Como o profissional de saúde pode aplicar isso no dia a dia?
Médicos, farmacêuticos e outros profissionais da linha de frente são percebidos como fontes confiáveis, mas precisam estar atentos à forma como se comunicam. A escuta ativa é o primeiro passo. Entender a origem da dúvida permite adaptar a resposta. Evitar tom de confronto ou superioridade é fundamental para manter o vínculo e abrir espaço para a reorientação.
Por exemplo, diante de um paciente que diz ter ouvido que vacinas “alteram o DNA”, uma resposta mais eficaz seria: “Muita gente tem essa dúvida, especialmente com tantas informações circulando por aí. Mas o que sabemos, com base em estudos sólidos, é que essa vacina atua no sistema imunológico e não altera o seu DNA.” Essa forma de responder é assertiva, empática e baseada em evidência.
Além disso, os profissionais podem usar seus canais digitais — redes sociais, e-mails, materiais educativos — para se antecipar a dúvidas comuns, criando conteúdos que expliquem, previnam e orientem.
Comunicação também é cuidado
A desinformação em saúde não é apenas um problema de comunicação. É uma questão de saúde pública. Informar com empatia, antecipar boatos, criar vínculos e respeitar o tempo de assimilação das pessoas faz parte de um cuidado ampliado e mais humanizado.
Nesse processo, a psicologia oferece o olhar necessário para entender como o ser humano reage diante da incerteza, da dúvida e do excesso de informação. Para profissionais da saúde, integrar esse conhecimento à prática clínica é um passo decisivo para fortalecer a confiança, melhorar a adesão a tratamentos e proteger o paciente de danos que começam muito antes da consulta — na tela do celular.
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Referências:
American Psychological Association (APA). Mind Over Misinformation. Última visita em: 03/02/2026
American Psychological Association (APA). Using psychological science to fight misinformation: A guide for journalists. 2023
American Psychological Association (APA). How and why does misinformation spread?. 2024
World Health Organization (WHO). Disinformation and public health. 2024
FIOCRUZ. Pesquisa analisa o impacto da pandemia entre profissionais de saúde. 2021
Ançanello JV, Casarin H de CS, Furnival AC. Competência em Informação, fake news e desinformação: análise das pesquisas no contexto brasileiro. Em Quest [Internet]. 2023;29:e–125782. Available from: https://doi.org/10.1590/1808-5245.29.125782