28/04/2026
Privacidade na menopausa: o risco invisível por trás dos aplicativos de saúde
Estudo revela que tecnologias usadas para aliviar sintomas também expõem dados íntimos e operam com pouca transparência
Um estudo publicado na revista ACM Transactions on Social Computing, intitulado User Risk Perceptions and Privacy Attitudes towards Menopause Data Collection and Use, analisou como 310 mulheres no Reino Unido utilizam tecnologias digitais durante a menopausa e quais são suas preocupações com privacidade e segurança de dados. A pesquisa mostra que essas ferramentas ganham espaço ao suprir lacunas de informação e apoio, mas operam em um ambiente marcado por desinformação, excesso de conteúdo e práticas pouco claras de compartilhamento de dados. Nesse cenário, a menopausa deixa de ser apenas uma questão de saúde e passa também a envolver riscos relacionados ao uso de informações pessoais sensíveis.
Busca por informação
A menopausa é uma fase natural da vida, mas ainda cercada por falta de informação e dificuldades no acesso ao cuidado. Um estudo publicado na revista PLOS One, intitulado Climacteric women’s perspectives on menopause and hormone therapy: Knowledge gaps, fears, and the role of healthcare advice, mostra que menos de um terço das mulheres se diz satisfeita com as informações recebidas sobre menopausa, e a maioria demonstra pouco ou nenhum conhecimento sobre terapia hormonal.
Esse contexto impulsiona o uso de plataformas digitais. No estudo principal, 69% das participantes afirmam usar tecnologias para preencher falhas deixadas por serviços de saúde e ambientes de trabalho, enquanto 31% destacam o papel das comunidades digitais.
“Isso acontece especialmente diante da dificuldade de acesso a um acompanhamento adequado ou de respostas claras durante a perimenopausa, que é uma fase particularmente desafiadora do ponto de vista diagnóstico. Essas ferramentas acabam preenchendo uma lacuna importante no cuidado”, exemplifica Isabelle Rodrigues dos Santos, doutora em Ciências com ênfase em Fisiologia da Reprodução pela FMRP-USP e Diretora de Operações na Dr. Fisiologia.
As tecnologias digitais podem ajudar no acompanhamento da menopausa ao permitir que as mulheres registrem e observem seus sintomas ao longo do tempo, como mudanças no sono, no humor e as ondas de calor. Isso facilita uma melhor compreensão do próprio corpo e pode contribuir para o cuidado com a saúde nesse período.
“Isso favorece um maior entendimento do próprio corpo e pode até qualificar a consulta médica, tornando-a mais objetiva. No entanto, esses benefícios dependem diretamente da qualidade das informações oferecidas e da forma como os dados são coletados e protegidos”, afirma Isabelle.
Estudos publicados nas revistas Women & Health e Patient Education and Counseling indicam que muitas mulheres se sentem despreparadas para lidar com a menopausa e encontram pouco suporte ou informação confiável, inclusive no sistema de saúde. Com isso, o ambiente digital se consolida como alternativa para entender sintomas e buscar apoio.
No entanto, essa busca também expõe dados sensíveis. Ao utilizar essas plataformas, as usuárias compartilham informações sobre sintomas, rotina e histórico de saúde, muitas vezes sem clareza sobre como esses dados são utilizados.
Benefícios e riscos
O uso dessas tecnologias traz vantagens percebidas pelas usuárias, como acesso rápido à informação, sensação de pertencimento e maior preparo para dialogar com profissionais de saúde. Ao mesmo tempo, esse ambiente apresenta fragilidades.
Segundo o estudo principal, 24% das participantes apontam preocupação com desinformação e 19% com o excesso e o conflito de conteúdos. Revisões científicas, citadas anteriormente, reforçam que informações sobre menopausa na internet são variadas e nem sempre confiáveis.
“A desinformação pode levar a decisões inadequadas, como o uso de terapias sem indicação ou o atraso na busca por atendimento médico. Por outro lado, o excesso de informação, especialmente quando é conflitante, pode gerar confusão, ansiedade e dificuldade na tomada de decisão”, explica Isabelle.
Coleta de dados
A preocupação com privacidade se intensifica ao observar como essas plataformas operam. Aplicativos de saúde feminina coletam uma grande quantidade de dados pessoais e comportamentais. Um estudo com 23 aplicativos mostrou que todos coletam dados de saúde, permitem rastreamento de comportamento e 61% acessam localização.
Essa coleta ocorre por dois motivos principais. O primeiro está ligado ao funcionamento do aplicativo: quanto mais dados, mais precisas são as recomendações e maior a retenção da usuária. O segundo envolve o valor dessas informações no mercado, já que dados sobre saúde feminina podem ser utilizados por empresas como seguradoras e anunciantes.
“Nenhuma dessas motivações aparece claramente nas políticas de privacidade, que o estudo identificou como frequentemente inacessíveis ou incompreensíveis”, afirma Maurício Alves Pereira Junior, cientista da computação e Diretor de Tecnologia da Dr. Fisiologia.
Além disso, 87% desses aplicativos compartilham dados com terceiros, enquanto pouco mais da metade informa medidas de segurança ou solicita consentimento explícito. Em alguns casos, a coleta ocorre antes mesmo da autorização formal.
“O risco mais imediato, identificado também pelo estudo, é a discriminação: dados de saúde que vazam ou são comercializados podem chegar a empregadores ou seguradoras e criar desvantagens concretas na vida dessas mulheres”, informa Pereira Junior.
Outro risco envolve golpes direcionados: quando dados de saúde são combinados com idade e hábitos de consumo, eles podem ser usados para criar perfis detalhados, aumentando a chance de fraudes financeiras. Além disso, quanto mais essas informações circulam fora do controle da usuária, mais difícil se torna acessá-las, corrigi-las ou excluí-las no futuro.
Uso dos dados
O estudo mostra que o consentimento para uso de dados é condicionado: as mulheres tendem a aceitar o compartilhamento apenas quando há clareza sobre quem acessa as informações, com qual finalidade e com qual nível de controle.
Na prática, essa transparência nem sempre existe. Pesquisas sobre aplicativos de saúde reprodutiva apontam riscos como rastreamento, uso para publicidade e possibilidade de reidentificação das usuárias.
Isso ocorre de forma pouco visível. Mesmo que o aplicativo principal tenha regras claras, ele pode integrar ferramentas de outras empresas para análise de dados ou publicidade. Ao aceitar os termos, a usuária pode permitir o acesso aos seus dados por diferentes empresas, muitas vezes sem perceber.
“O dado de localização, padrão de uso, sintomas relatados e até dados comportamentais dentro do app viajam por essa cadeia. No Brasil, a LGPD exige que cada elo dessa cadeia seja identificado e que a finalidade de uso seja declarada, mas o enforcement ainda é incipiente nesse setor”, explica Pereira Junior.
Falta de apoio
A dependência dessas tecnologias também reflete fragilidades no cuidado à menopausa. Estudos das revistas Maturitas (1) (2) e Journal of Advanced Nursing mostram que muitas mulheres enfrentam falta de apoio no ambiente familiar, no trabalho e no atendimento em saúde, além de dificuldades para discutir o tema.
A menopausa ainda é associada ao envelhecimento e à queda de produtividade, o que pode impactar a forma como essas mulheres são vistas, inclusive no ambiente profissional.
“Um ponto sensível levantado pelo estudo é o risco de uso indevido de dados coletados por aplicativos, que poderiam, por exemplo, ser utilizados por empregadores ou seguradoras, ampliando ainda mais esse cenário de vulnerabilidade”, explica Isabelle.
Diante desse cenário, o ambiente digital se torna uma alternativa frequente, mesmo com riscos pouco visíveis.
Comunidades digitais
As comunidades online se destacam como espaços de troca e apoio, ajudando a reduzir o isolamento e a compartilhar experiências.
“Ao mesmo tempo, é importante ter cautela, já que muitas dessas interações não contam com a mediação de profissionais de saúde, o que pode facilitar a circulação de informações incorretas e experiências que podem ser muito individuais”, aponta Isabelle.
Esses espaços podem ajudar, mas exigem atenção quanto à qualidade das informações e à proteção da privacidade.
Privacidade em debate
O avanço das tecnologias voltadas à menopausa revela um paradoxo: ao mesmo tempo em que ampliam o acesso à informação e ao cuidado, também expõem mulheres a riscos relacionados ao uso de dados pessoais.
O estudo mostra que a confiança depende de transparência, controle e segurança, fatores que ainda não estão plenamente garantidos.
“Além disso, também é necessário avançar na qualidade das informações oferecidas e na integração dessas tecnologias com o cuidado em saúde baseado em evidências”, conclui Isabelle.
“O ponto central é mudar o incentivo de quem desenvolve. Hoje, o modelo de negócio favorece a coleta máxima de dados. Enquanto isso não mudar, as boas práticas serão sempre ornamentais”, conclui Pereira Junior.
| Assessoria de Imprensa Dr. Fisiologia
| assessoria@drfisiologia.com.br
| (16) 99136-5048
Um estudo publicado na revista ACM Transactions on Social Computing, intitulado User Risk Perceptions and Privacy Attitudes towards Menopause Data Collection and Use, analisou como 310 mulheres no Reino Unido utilizam tecnologias digitais durante a menopausa e quais são suas preocupações com privacidade e segurança de dados. A pesquisa mostra que essas ferramentas ganham espaço ao suprir lacunas de informação e apoio, mas operam em um ambiente marcado por desinformação, excesso de conteúdo e práticas pouco claras de compartilhamento de dados. Nesse cenário, a menopausa deixa de ser apenas uma questão de saúde e passa também a envolver riscos relacionados ao uso de informações pessoais sensíveis.
Busca por informação
A menopausa é uma fase natural da vida, mas ainda cercada por falta de informação e dificuldades no acesso ao cuidado. Um estudo publicado na revista PLOS One, intitulado Climacteric women’s perspectives on menopause and hormone therapy: Knowledge gaps, fears, and the role of healthcare advice, mostra que menos de um terço das mulheres se diz satisfeita com as informações recebidas sobre menopausa, e a maioria demonstra pouco ou nenhum conhecimento sobre terapia hormonal.
Esse contexto impulsiona o uso de plataformas digitais. No estudo principal, 69% das participantes afirmam usar tecnologias para preencher falhas deixadas por serviços de saúde e ambientes de trabalho, enquanto 31% destacam o papel das comunidades digitais.
“Isso acontece especialmente diante da dificuldade de acesso a um acompanhamento adequado ou de respostas claras durante a perimenopausa, que é uma fase particularmente desafiadora do ponto de vista diagnóstico. Essas ferramentas acabam preenchendo uma lacuna importante no cuidado”, exemplifica Isabelle Rodrigues dos Santos, doutora em Ciências com ênfase em Fisiologia da Reprodução pela FMRP-USP e Diretora de Operações na Dr. Fisiologia.
As tecnologias digitais podem ajudar no acompanhamento da menopausa ao permitir que as mulheres registrem e observem seus sintomas ao longo do tempo, como mudanças no sono, no humor e as ondas de calor. Isso facilita uma melhor compreensão do próprio corpo e pode contribuir para o cuidado com a saúde nesse período.
“Isso favorece um maior entendimento do próprio corpo e pode até qualificar a consulta médica, tornando-a mais objetiva. No entanto, esses benefícios dependem diretamente da qualidade das informações oferecidas e da forma como os dados são coletados e protegidos”, afirma Isabelle.
Estudos publicados nas revistas Women & Health e Patient Education and Counseling indicam que muitas mulheres se sentem despreparadas para lidar com a menopausa e encontram pouco suporte ou informação confiável, inclusive no sistema de saúde. Com isso, o ambiente digital se consolida como alternativa para entender sintomas e buscar apoio.
No entanto, essa busca também expõe dados sensíveis. Ao utilizar essas plataformas, as usuárias compartilham informações sobre sintomas, rotina e histórico de saúde, muitas vezes sem clareza sobre como esses dados são utilizados.
Benefícios e riscos
O uso dessas tecnologias traz vantagens percebidas pelas usuárias, como acesso rápido à informação, sensação de pertencimento e maior preparo para dialogar com profissionais de saúde. Ao mesmo tempo, esse ambiente apresenta fragilidades.
Segundo o estudo principal, 24% das participantes apontam preocupação com desinformação e 19% com o excesso e o conflito de conteúdos. Revisões científicas, citadas anteriormente, reforçam que informações sobre menopausa na internet são variadas e nem sempre confiáveis.
“A desinformação pode levar a decisões inadequadas, como o uso de terapias sem indicação ou o atraso na busca por atendimento médico. Por outro lado, o excesso de informação, especialmente quando é conflitante, pode gerar confusão, ansiedade e dificuldade na tomada de decisão”, explica Isabelle.
Coleta de dados
A preocupação com privacidade se intensifica ao observar como essas plataformas operam. Aplicativos de saúde feminina coletam uma grande quantidade de dados pessoais e comportamentais. Um estudo com 23 aplicativos mostrou que todos coletam dados de saúde, permitem rastreamento de comportamento e 61% acessam localização.
Essa coleta ocorre por dois motivos principais. O primeiro está ligado ao funcionamento do aplicativo: quanto mais dados, mais precisas são as recomendações e maior a retenção da usuária. O segundo envolve o valor dessas informações no mercado, já que dados sobre saúde feminina podem ser utilizados por empresas como seguradoras e anunciantes.
“Nenhuma dessas motivações aparece claramente nas políticas de privacidade, que o estudo identificou como frequentemente inacessíveis ou incompreensíveis”, afirma Maurício Alves Pereira Junior, cientista da computação e Diretor de Tecnologia da Dr. Fisiologia.
Além disso, 87% desses aplicativos compartilham dados com terceiros, enquanto pouco mais da metade informa medidas de segurança ou solicita consentimento explícito. Em alguns casos, a coleta ocorre antes mesmo da autorização formal.
“O risco mais imediato, identificado também pelo estudo, é a discriminação: dados de saúde que vazam ou são comercializados podem chegar a empregadores ou seguradoras e criar desvantagens concretas na vida dessas mulheres”, informa Pereira Junior.
Outro risco envolve golpes direcionados: quando dados de saúde são combinados com idade e hábitos de consumo, eles podem ser usados para criar perfis detalhados, aumentando a chance de fraudes financeiras. Além disso, quanto mais essas informações circulam fora do controle da usuária, mais difícil se torna acessá-las, corrigi-las ou excluí-las no futuro.
Uso dos dados
O estudo mostra que o consentimento para uso de dados é condicionado: as mulheres tendem a aceitar o compartilhamento apenas quando há clareza sobre quem acessa as informações, com qual finalidade e com qual nível de controle.
Na prática, essa transparência nem sempre existe. Pesquisas sobre aplicativos de saúde reprodutiva apontam riscos como rastreamento, uso para publicidade e possibilidade de reidentificação das usuárias.
Isso ocorre de forma pouco visível. Mesmo que o aplicativo principal tenha regras claras, ele pode integrar ferramentas de outras empresas para análise de dados ou publicidade. Ao aceitar os termos, a usuária pode permitir o acesso aos seus dados por diferentes empresas, muitas vezes sem perceber.
“O dado de localização, padrão de uso, sintomas relatados e até dados comportamentais dentro do app viajam por essa cadeia. No Brasil, a LGPD exige que cada elo dessa cadeia seja identificado e que a finalidade de uso seja declarada, mas o enforcement ainda é incipiente nesse setor”, explica Pereira Junior.
Falta de apoio
A dependência dessas tecnologias também reflete fragilidades no cuidado à menopausa. Estudos das revistas Maturitas (1) (2) e Journal of Advanced Nursing mostram que muitas mulheres enfrentam falta de apoio no ambiente familiar, no trabalho e no atendimento em saúde, além de dificuldades para discutir o tema.
A menopausa ainda é associada ao envelhecimento e à queda de produtividade, o que pode impactar a forma como essas mulheres são vistas, inclusive no ambiente profissional.
“Um ponto sensível levantado pelo estudo é o risco de uso indevido de dados coletados por aplicativos, que poderiam, por exemplo, ser utilizados por empregadores ou seguradoras, ampliando ainda mais esse cenário de vulnerabilidade”, explica Isabelle.
Diante desse cenário, o ambiente digital se torna uma alternativa frequente, mesmo com riscos pouco visíveis.
Comunidades digitais
As comunidades online se destacam como espaços de troca e apoio, ajudando a reduzir o isolamento e a compartilhar experiências.
“Ao mesmo tempo, é importante ter cautela, já que muitas dessas interações não contam com a mediação de profissionais de saúde, o que pode facilitar a circulação de informações incorretas e experiências que podem ser muito individuais”, aponta Isabelle.
Esses espaços podem ajudar, mas exigem atenção quanto à qualidade das informações e à proteção da privacidade.
Privacidade em debate
O avanço das tecnologias voltadas à menopausa revela um paradoxo: ao mesmo tempo em que ampliam o acesso à informação e ao cuidado, também expõem mulheres a riscos relacionados ao uso de dados pessoais.
O estudo mostra que a confiança depende de transparência, controle e segurança, fatores que ainda não estão plenamente garantidos.
“Além disso, também é necessário avançar na qualidade das informações oferecidas e na integração dessas tecnologias com o cuidado em saúde baseado em evidências”, conclui Isabelle.
“O ponto central é mudar o incentivo de quem desenvolve. Hoje, o modelo de negócio favorece a coleta máxima de dados. Enquanto isso não mudar, as boas práticas serão sempre ornamentais”, conclui Pereira Junior.
| Assessoria de Imprensa Dr. Fisiologia
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