27/04/2026

Uso frequente de cannabis e tabaco é associado a alterações no volume cerebral

Meta-análise com quase 73 mil participantes indica que os efeitos dessas substâncias podem ir além da dependência e envolver mudanças na organização do cérebro

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada na revista Addiction indica que o uso de cannabis e tabaco está associado à redução do volume de áreas cerebrais relacionadas a emoções, cognição e comportamento. O estudo reuniu 103 pesquisas com cerca de 73 mil participantes e identificou alterações em regiões como a amígdala, a ínsula e a massa cinzenta, sugerindo que os efeitos dessas substâncias podem ir além da dependência e alcançar a própria organização do cérebro.

O que diz o estudo

Os principais achados da meta-análise mostram que a associação entre uso de substâncias e alterações cerebrais não ocorre de forma uniforme entre cannabis e tabaco. Segundo o artigo “Associations of cannabis use, tobacco use and co-use with brain volume: a systematic review and meta-analysis”, pessoas que usam cannabis tendem a apresentar menor volume da amígdala, estrutura envolvida no processamento das emoções e nas respostas ao estresse.

Já entre fumantes de tabaco, as alterações observadas foram mais amplas. O estudo encontrou associação entre o tabagismo e menor volume não apenas da amígdala, mas também da ínsula, do globo pálido e da massa cinzenta total. Essas áreas desempenham funções importantes no controle emocional, na percepção interna do corpo, na motivação, no aprendizado e na coordenação de comportamentos.

“Esses achados sugerem que, enquanto a cannabis pode estar associada a alterações mais localizadas, o tabagismo tende a impactar de forma mais difusa a estrutura cerebral”, explica Rafael Appel, farmacêutico e diretor científico da Dr. Fisiologia.

Outro ponto destacado pelos pesquisadores é a possibilidade de efeito cumulativo do tabagismo sobre o cérebro. Nas análises longitudinais incluídas na revisão, fumantes apresentaram redução mais acelerada da massa cinzenta ao longo do tempo em comparação com não fumantes. Como esse tecido concentra grande parte dos neurônios cerebrais, sua perda está associada a pior desempenho cognitivo e maior vulnerabilidade a alterações emocionais.

“Ao longo do tempo, essa estimulação contínua pode gerar adaptações neurobiológicas, incluindo alterações na densidade neuronal e na organização da substância cinzenta. No contexto de uso combinado, há plausibilidade de efeitos aditivos ou interativos, o que pode contribuir para reduções estruturais em determinadas regiões cerebrais”, afirma Appel.

Como agem no cérebro

Embora ambas sejam substâncias psicoativas, a cannabis e o tabaco atuam por mecanismos biológicos diferentes. Segundo a revisão “Cannabis and Mental Health”, publicada no JAMA Internal Medicine, o principal composto psicoativo da cannabis é o THC, que atua sobre receptores CB1 distribuídos em diversas regiões cerebrais relacionadas à memória, ao humor e ao comportamento. A mesma revisão destaca que o aumento da potência dos produtos de cannabis e da frequência de uso nas últimas décadas ampliou a preocupação com seus efeitos sobre a saúde mental e neurológica.

Essa ação é detalhada também na revisão “Cannabis-Related Disorders and Toxic Effects”, publicada no New England Journal of Medicine, que descreve a interação do THC com o sistema endocanabinoide — uma rede de sinalização presente em áreas como hipocampo, gânglios da base e córtex cerebral, fundamentais para memória, coordenação motora e funções executivas. Segundo os autores, o uso prolongado pode interferir nesse sistema e contribuir para alterações funcionais e anatômicas ainda em investigação.

“Considerando que as duas substâncias atuam em sistemas diferentes, há uma base biológica consistente para a hipótese de efeitos cumulativos sobre a estrutura cerebral”, informa Appel.

No caso do tabaco, o principal composto psicoativo é a nicotina. O artigo “Nicotine Addiction”, também publicado no New England Journal of Medicine, explica que a substância atua em receptores nicotínicos de acetilcolina distribuídos por todo o cérebro, alterando a liberação de neurotransmissores e modulando circuitos relacionados a prazer, aprendizado e reforço comportamental.

Complementando esse cenário, a revisão “Chronic effects of tobacco smoking on electrical brain activity”, publicada na Behavioural Brain Research, aponta que o tabagismo está associado a alterações persistentes na atividade cerebral e que revisões recentes relacionam o hábito de fumar à redução de massa cinzenta em diversas regiões do cérebro, com possíveis repercussões sobre cognição e regulação emocional.

Na prática, a expressão “cérebro menor” não significa que o cérebro inteiro diminuiu de tamanho, mas sim que algumas regiões específicas ou a quantidade total de substância cinzenta apresentam reduções discretas de volume. Essas alterações podem repercutir no funcionamento cerebral, com possíveis reflexos sobre memória, atenção e regulação emocional.

“No entanto, é importante destacar que esses efeitos tendem a ser de pequena magnitude e não determinam, isoladamente, o funcionamento cognitivo de um indivíduo”, indica Appel.

Debate além da dependência

Os achados ampliam a discussão pública sobre os riscos associados ao uso de cannabis e tabaco ao sugerirem que seus efeitos podem extrapolar a dependência química e envolver alterações na organização cerebral. No caso da cannabis, esse debate se torna ainda mais relevante diante do aumento da potência dos produtos disponíveis e da expansão do uso medicinal e recreativo em diferentes países.

“A cannabis em contexto clínico é utilizada de forma controlada e padronizada, com foco em compostos específicos e doses bem estabelecidas”, explica Appel.

No uso medicinal, o consumo ocorre com acompanhamento médico, formulações controladas e indicação baseada em evidências científicas, como em alguns casos de epilepsia de difícil controle, dor crônica, espasticidade e sintomas relacionados à quimioterapia. “Esse contexto reduz incertezas e riscos, além de permitir uma avaliação mais precisa dos benefícios terapêuticos”, afirma Appel.

A revisão “Therapeutic Use of Cannabis and Cannabinoids”, publicada no JAMA, destaca que produtos com alta concentração de THC estão associados a maior risco de efeitos adversos psiquiátricos, como sintomas psicóticos e ansiedade, além de reforçar que as evidências para uso terapêutico ainda são insuficientes para muitas das indicações atualmente divulgadas.

“Essas mudanças podem estar relacionadas a prejuízos cognitivos, alterações emocionais e impacto em funções executivas, embora a intensidade desses efeitos varie entre indivíduos e padrões de uso”, aponta Appel.

Ao mesmo tempo, o mapa de evidências “Charting the therapeutic landscape: a comprehensive evidence map on medical cannabis for health outcomes”, publicado na Frontiers in Pharmacology, mostra que a literatura sobre cannabis medicinal é extensa, porém heterogênea, com grande variação entre formulações, doses e desfechos avaliados. Isso reforça a necessidade de separar o debate sobre potencial terapêutico da discussão sobre riscos associados ao uso frequente ou de alta potência.

Até o momento, não existe uma quantidade considerada segura para o consumo dessas substâncias. De modo geral, os estudos em saúde indicam que o risco tende a aumentar conforme crescem a frequência de uso, o tempo de exposição e a potência dos produtos consumidos.

“No caso da cannabis, produtos com maior concentração de THC estão associados a maior risco de efeitos adversos. Assim, o conceito de “uso seguro” é limitado, especialmente fora de contextos médicos controlados”, afirma Appel.

O que falta saber

Apesar da consistência estatística observada na meta-análise da Addiction, os próprios autores ressaltam que os resultados mostram associação, e não necessariamente causalidade direta. Isso significa que, embora haja ligação entre o uso das substâncias e menor volume cerebral, ainda não é possível afirmar com total certeza que essas alterações sejam provocadas exclusivamente pelo consumo, sem influência de outros fatores associados.

Além disso, os pesquisadores destacam que ainda não se sabe em que medida essas alterações são reversíveis após a interrupção do uso, qual o impacto funcional exato dessas mudanças na vida cotidiana e como variáveis como dose, frequência, idade de início e predisposição genética interferem nesse processo.

“Ainda não há consenso definitivo sobre a reversibilidade. Parte das evidências sugere que algumas alterações podem ser parcialmente revertidas após a interrupção do uso, especialmente em casos menos prolongados. No entanto, exposições crônicas e de longa duração podem levar a mudanças mais persistentes”, aponta Appel.

Em conjunto, as evidências disponíveis indicam que cannabis e tabaco podem estar associados a alterações cerebrais que vão além dos efeitos normalmente debatidos em torno dessas substâncias. Esse cenário reforça a importância de campanhas de conscientização, estratégias de redução de danos e políticas públicas que considerem também os riscos do uso combinado entre cannabis e tabaco.

“Além disso, destacam a necessidade de diferenciar claramente o uso medicinal, baseado em evidência e controle, do uso recreativo crônico, que apresenta maior incerteza em termos de impacto à saúde cerebral”, conclui Appel.

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