Violência nas unidades de saúde: 12 médicos agredidos por dia, segundo levantamento do CFM
A cada duas horas, um médico é vítima de violência em seu local de trabalho no Brasil. Essa é a realidade retratada pelo levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM), que revelou um dado alarmante: somente em 2024, foram registrados 4.562 boletins de ocorrência (BOs) envolvendo médicos agredidos ou ameaçados em estabelecimentos de saúde. Isso significa que, em média, doze médicos sofreram algum tipo de violência por dia em hospitais, clínicas, prontos-socorros, laboratórios, consultórios e outros espaços, públicos ou privados.
A pesquisa, realizada por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), evidencia não apenas o aumento expressivo da violência, mas também a gravidade do problema em diferentes regiões do país.
A violência contra médicos
Segundo o levantamento, a maior parte das agressões têm como autores os próprios pacientes, familiares ou pessoas sem qualquer vínculo com o profissional. Porém, também foram registrados casos cometidos por colegas de trabalho, incluindo enfermeiros, técnicos e outros profissionais da saúde. Importante ressaltar que a violência se manifesta de várias formas: ameaças, injúrias, lesões corporais, difamações, assédio, entre outros crimes.
De acordo com os dados coletados, mais de 250 casos (6%) ocorreram em ambientes digitais, como redes sociais e aplicativos de mensagens, com crimes como difamação e ameaça sendo registrados virtualmente. Dessa forma, isso mostra que a violência contra médicos não se limita ao espaço físico, mas também se espalha pelas plataformas digitais.

Entre os estados, São Paulo lidera o número de casos, com 832 ocorrências, seguido por Paraná (767) e Minas Gerais (460). Em São Paulo, metade dos casos aconteceu na capital, e quase 50% foram registrados por médicas. Em oito estados, o número de mulheres vítimas de violência superou o de homens — o que reforça a vulnerabilidade de profissionais mulheres no exercício da medicina.

Outro dado importante: 66% das ocorrências aconteceram no interior, enquanto 34% foram registradas nas capitais. Isso revela que a violência contra médicos não é um problema exclusivo de grandes centros urbanos.

Por que esse tema exige atenção imediata?
A violência contra médicos é um tema sensível, pois afeta diretamente quem está na linha de frente do cuidado com a vida. Quando um profissional da saúde sofre agressão, não é apenas ele que perde. Toda a cadeia de atendimento é impactada: os colegas, os pacientes, a qualidade do serviço, o tempo de espera, a segurança do ambiente e, principalmente, a confiança na relação médico-paciente.
Além disso, essa violência agrava um cenário já sobrecarregado, especialmente na saúde pública. Médicos enfrentam rotinas exaustivas, falta de estrutura, escassez de recursos e, ainda assim, precisam manter o equilíbrio emocional e a empatia. Em um ambiente onde o medo e a insegurança se instalam, é mais difícil garantir um atendimento humanizado, ético e eficiente.
O que está sendo feito?
O Conselho Federal de Medicina tem se mobilizado para enfrentar o problema. Entre as ações mais relevantes, estão:
- Apoio a projetos de lei que aumentam a pena para quem agride profissionais da saúde no exercício da função, como o PL nº 6.749/16, já aprovado na Câmara dos Deputados;
- Articulação com governos estaduais e delegacias de Polícia Civil para a criação de delegacias especializadas em crimes contra profissionais da saúde;
- Pressão por ações mais efetivas por parte dos gestores públicos, especialmente no Sistema Único de Saúde (SUS), para garantir a integridade física e psicológica de médicos e demais profissionais;
- Campanhas de conscientização e reforço do papel da sociedade no respeito aos profissionais de saúde.
Violência não pode ser naturalizada
É preciso dizer com todas as letras: a violência contra médicos não pode ser tratada como algo “cotidiano”. Assim como não aceitamos agressões contra qualquer profissional, também não podemos aceitar que profissionais da saúde trabalhem com medo.
A naturalização da violência fragiliza o sistema, afasta profissionais da carreira médica, gera adoecimento mental e reduz a qualidade do atendimento. Sem falar na dor emocional que esses episódios deixam.
O papel da transparência e da comunicação
A gestão da crise da violência contra médicos também exige transparência e empatia. Isso vale tanto para as instituições de saúde quanto para os conselhos profissionais, governos e empresas do setor.
A comunicação precisa ser clara: mostrar que o problema existe, que medidas estão sendo tomadas e que o profissional não está sozinho. Criar canais de acolhimento e escuta, oferecer suporte psicológico, registrar formalmente cada caso e punir os responsáveis são passos essenciais para construir um ambiente mais seguro.
Além disso, educar a população sobre os limites e direitos dos médicos, e sobre os canais adequados para reclamações e denúncias, pode ajudar a reduzir a tensão e a violência nos atendimentos.
O que cada instituição pode fazer?
Clínicas, hospitais e consultórios também podem (e devem) agir para proteger suas equipes. Algumas medidas possíveis incluem:
- Criar protocolos de segurança e agir com rapidez em casos de ameaça;
- Treinar as equipes para lidar com conflitos e situações de risco;
- Incentivar o registro de ocorrências e o acompanhamento psicológico dos profissionais;
- Investir em campanhas internas de valorização do trabalho médico;
- Promover ações educativas com pacientes e familiares.
Um compromisso com o cuidado e com quem cuida
A luta contra a violência nos ambientes de saúde é coletiva. Não basta apenas reagir quando algo grave acontece. É preciso prevenir, agir com responsabilidade e construir uma cultura de respeito ao cuidado.
Os profissionais da saúde merecem exercer seu trabalho com segurança, dignidade e reconhecimento. Cuidar de quem cuida também é parte do compromisso com uma saúde melhor para todos.
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Referências:
Conselho Federal de Medicina (CFM). Violência contra médicos em estabelecimentos de saúde bate recorde. 2025
Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM). Doze médicos são vítimas de violência em estabelecimentos de saúde por dia no País. 2025