O que muda com a queda da patente do Ozempic no Brasil?
O mercado farmacêutico brasileiro está prestes a passar por uma transformação significativa. Em março de 2026, a patente da semaglutida — princípio ativo do medicamento Ozempic, da farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk — vai expirar no Brasil. Isso significa que outras empresas poderão comercializar versões genéricas ou similares da substância, com preços mais acessíveis e potencial para ampliar o acesso ao tratamento.
Mas, afinal, o que isso representa na prática para o setor de saúde, os pacientes e o sistema regulatório?
O que é a semaglutida e por que ela é importante?
A semaglutida é uma substância da classe dos análogos do GLP-1, indicada inicialmente para o controle da diabetes tipo 2. Com o tempo, estudos e a prática clínica mostraram que ela também tem efeito significativo na perda de peso, o que ampliou sua popularidade e demanda global, especialmente no tratamento da obesidade.
O Ozempic se tornou um fenômeno. E, com a queda de sua patente, o Brasil se prepara para uma nova fase no acesso a medicamentos desse tipo.
Genéricos e similares: o que muda?
A partir de 2026, laboratórios poderão comercializar versões genéricas e similares do Ozempic. Isso deve diminuir os preços em até 60%, de acordo com a PróGenéricos (Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos e Biossimilares).
Segundo o artigo da NeoFeed, os genéricos devem custar pelo menos 35% menos do que o medicamento de referência. Na prática, essa diferença pode ser ainda maior: um grande avanço para ampliar o acesso da população a tratamentos eficazes para doenças crônicas como a obesidade e a diabetes.
O movimento já começou
Mesmo antes do vencimento da patente, muitos laboratórios já se movimentam. A farmacêutica EMS, por exemplo, recebeu autorização da Anvisa para comercializar dois medicamentos da mesma classe do Ozempic. Além disso, empresas da China e da Índia estão em estágio avançado de desenvolvimento de similares, e alguns produtos já foram aprovados em países como Reino Unido e Índia.
O laboratório indiano Biocon, por exemplo, fechou parceria com a brasileira Biomm para comercializar sua versão de semaglutida a partir de 2026. Isso mostra como o mercado brasileiro está se tornando estratégico para a indústria global.
Impacto regulatório
Do ponto de vista da regulação, a Anvisa já sinaliza abertura para acelerar a aprovação desses medicamentos, desde que comprovem eficácia e segurança. A agência exige que os genéricos e similares passem por estudos clínicos rigorosos, com equivalência farmacológica, bioequivalência e qualidade dos insumos utilizados.
A preparação técnica já está em andamento: empresas interessadas em comercializar esses produtos no Brasil podem desenvolver suas fórmulas, submeter à aprovação da Anvisa e entrar no mercado assim que o prazo da patente se encerrar.
Impacto no mercado farmacêutico
De acordo com relatório do BTG Pactual, o vencimento de patentes como a da semaglutida abre um mercado bilionário. Somente em 2024, os genéricos movimentaram R$ 20,4 bilhões no Brasil. E o Ozempic está no centro dessa nova fase.
Cerca de 1.500 patentes relacionadas a mil medicamentos devem expirar nos próximos cinco anos. Isso representa uma oportunidade enorme para a indústria nacional, especialmente em áreas estratégicas como oncologia, antibióticos, antidiabéticos e medicamentos cardiovasculares.
O banco estima um crescimento anual de 10% no mercado de genéricos, com o Brasil se consolidando como produtor global.
Crescimento da indústria nacional
Para aproveitar esse cenário, a indústria farmacêutica brasileira já está investindo pesado. A Aché planeja aplicar R$ 500 milhões até 2027 para ampliar fábricas em três estados. A Cimed, por sua vez, investiu R$ 200 milhões em 2024, focando em genéricos para doenças crônicas. O laboratório Teuto já tem 80 produtos aguardando aprovação.
Já o BNDES não ficou de fora: liberou R$ 7,8 bilhões em financiamentos para o setor entre 2023 e 2025. E, por fim, a FINEP injetou R$ 11,8 bilhões em inovação e infraestrutura, fortalecendo a cadeia nacional de insumos farmacêuticos.
Impactos clínicos e sociais
Do ponto de vista clínico, a chegada de genéricos e similares da semaglutida pode transformar o cuidado com a obesidade e a diabetes no Brasil. Com preços mais acessíveis, será possível ampliar o número de pacientes tratados com medicamentos eficazes, especialmente no SUS.
Além disso, o aumento da concorrência deve pressionar os preços dos medicamentos de referência, beneficiando tanto o sistema público quanto o privado.
Essa ampliação do acesso também tem potencial para reduzir complicações associadas à obesidade e à diabetes, como doenças cardiovasculares e insuficiência renal, melhorando indicadores de saúde pública e aliviando custos hospitalares.
Desafios e disputas jurídicas
Apesar do otimismo, há obstáculos no caminho. A Novo Nordisk, fabricante do Ozempic, entrou na Justiça para tentar estender a exclusividade da patente no Brasil. O argumento é que houve atraso na concessão da patente, encurtando seu período de vigência. Essa disputa pode gerar precedentes importantes sobre como o Brasil lida com pedidos de extensão de patentes no setor farmacêutico.
Enquanto isso, laboratórios seguem com seus planos para entrar no mercado assim que possível.
Oportunidade para inovar com impacto
A queda da patente da semaglutida é um marco importante. Representa uma virada para o acesso à saúde, para a indústria farmacêutica e para a inovação nacional. Com os investimentos certos e uma regulação eficiente, o Brasil tem tudo para se posicionar como protagonista em uma nova geração de medicamentos acessíveis.
E a Dr. Fisiologia acompanha tudo de perto.
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Referências:
NeoFeed. Queda de 1,5 mil patentes movimenta mercado de remédios genéricos no Brasil. 2025
Associação Paulista de Medicina (APM). Ozempic: quando vai cair a patente e quanto vai custar no Brasil? 2025